Tirei o bilhete e aguardei na longa fila pela abertura do espectáculo. Comigo levava a observação afiada para tornar aquele lugar mais um preceito da existência.
Por fim lá ousaram abrir as portas. Tomei por certo ocupar um lugar minimamente seguro e que, de igual modo, me proporcionasse um visão ampla e minuciosa. Depois de mais uns longos momentos de espera abriram-se as cortinas e deu-se início ao espectáculo.
A primeira actuação fora de “Ramona”, notável mulheres dos tecidos, que fazia malabarismos nas alturas. Rapidamente tomei como seu princípio de identidade o daqueles que ao parecerem muito ousados, são, em verdade, meros artífices de obtenção dos seus fins, não adeptos da rectidão, diga-se.
Posterior a este número bem manejado passou-se ao domador de animais, alegadamente animais exóticos, como frisara a apresentadora! Deste não me restou dúvidas; é como os parasitas da vida que preferem habitar os meandros ao invés de se exporem em demasia. E assim, usando constantemente os outros levam a água ao seu moinho, sem nunca se cansarem, pois não são capazes de usar as suas próprias pernas.
Logo após, os afamados números de palhaços. Neles vejo as almas puras que dia a pós dia confiam e se deixam confiar nos outros e permitem, ainda que sem darem por isso, fazer-se marionetas não mãos dos audazes domadores; uns são de animais selvagens, outros são os “vampiros” terrestres. Mas o sorriso de uma criança é também essa pureza e cabe-nos a obrigação de primeiro estarmos atentos aos insaciáveis devoradores e posteriormente sermos os primeiros professores desta caminhada quase sempre ladeada de famintos.
Alem disto deram-me tréguas para digerir juntamente com o algodão doce todos os acontecimentos presenciados, tudo isto num meramente anunciado curto intervalo. Ou talvez não. Aproveitaram para injectar mais uma injecção “super-consumo”, e eu lá acabei por comprar o algodão doce, depois de ter resistido às brilhantes espadas, que talvez tivessem como propósito perfurar-me a alma, ou era magia?
O espectáculo prosseguiu com duas actuações quanto a mim basicamente idênticas. A primeira pautada por magias e ilusões ópticas, onde, possivelmente a “partner” se transformava num leão branco. E quantos apesar de apresentarem um rótulo apetitoso e bem comercial não se escondem por entres os finos sapatos e as elegantes luvas de couro onde ostentam poderosas garras de felino. Quanto ao segundo número desta série foi, literalmente, fogo de vista. O actuante esculpia fogo. Mas por certo era menos inofensivo do que as larvas esculpidas por muitas e muitas “tricotadeiras” que têm como passatempo, e outras como oficio, opinar sobre a sua vida dos outros. E não é que quando dão por si o seu próprio ódio já lhe corrompe os cabelos, pois ficam na angústia acerca do que mais possam inventar.
Posto isto, a apresentadora referenciou os artistas da companhia (apesar de eu já não necessitar desses apontamentos) tendo, educadamente, forçado os tendões para me juntar aos aplausos.
Cheguei a casa, atirei-me para cima da cama. Descansei o olhar e pensei para comigo mesmo se a vida é, ou não é, um puro circo, onde as pessoas convergem e se mascaram da personagem com a qual mais se identificam.