"Se queres ser cego, sê-lo-às...se podes olhar, vê; se podes ver, repara."
(José Saramago)
Encobriu os olhos, e deslocou a cabeça em movimentos laterais de ida e volta com o intuito de fazer-se deslizar nas mais afinadas cordas de um violino. Naquele instante era na sua conjuntura a mais bela harmonia, não a musical mas sim existencial.
João foi um combatente não da guerra, mas sim da vida. Foi capaz de escrever rapidamente e de outras vez de escrever rápido. Teve a maior fortuna do Mundo, mas também conquistou a pobreza. Viajou, sem nunca ter passaporte, sonhou sem nunca ter dormido, falou sem nunca ter pronunciado uma palavra. Morreu quando quis, revoltou quando regressou e amou sem nunca ter amado.
Ele foi feliz, fez-se mensagem de que na vida podermos ser o que quisermos, desde que não deixemos de ser nós próprios. Às noites, sou poeta. E tu, quem és?
“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha, não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.”
"Os olhos são o espelho da alma. Eles podem falar com profundidade. Em certas ocasiões pode acontecer que se expressem demasiado ou muito pouco, inclusivamente poderão expressar sentimentos que gostariamos de manter secretos."
"Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Niguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho."
Sinto-me exausto! Este processo tem exigido muito de mim, contudo estou confiante para o dia do julgamento. Ainda ontem reuni com o meu cliente e ambos partilhamos de igual opinião quanto ao desfecho do caso, assim o aconteça. Mas, como sabes, nada está garantido e por vezes basta a relato menos esclarecido de uma testemunha e cai tudo por terra; resta-me pensar positivamente, como sempre tento fazer.
Cada vez estou mais convicto que todo o nosso percurso escolar não é o garantir de todas as nossas ferramentas para o sucesso. Cá para nós, é essencialmente uma escola de vida, para esse fim é excelente. Só a partir do estágio é que tomei consciência do que é verdadeiramente a carreira de advogado. Enquanto te estou a escrever esta carta, muito provavelmente a minha colega está a preparar a contra-defesa e outros a tentar formular o assalto ao meu próximo processo, aqueles dos desvios de combustível nas gasolineiras, que penso já te ter falado. Ainda assim, o mais difícil nesta profissão não é o dia de julgamento, nem o batalha psicológica a que estou exposto, mas antes a capacidade que tens ou não, para te conseguires impor, para suportar as disputas, se dentro de tribunal travas um julgamento, cá por fora travas um duelo, muitas vezes sem o saberes.
No fim-de-semana passado, eu, a Matilde e os nossos filhos fomos até Amarante. A minha avó fazia anos e lá arranjei um tempo para matar saudades da família. No sábado à noite, final do jantar, aproveitamos e fomos até ao café, aquele que fica próximo ao Externato. Sinceramente esse tempo não me diz muito, também nunca me quis ligar em demasia ao passado. Passei lá óptimos momentos, conheci pessoas excelentes, outras nem tanto, mas pronto é tudo isso – passado. Apesar de manter contacto com alguns dos meus colegas, já não há igual significado. Por vezes ainda contactamos para ver como estão as coisas, mas a sua maioria já casou e por vezes não é fácil tentar encontrar-nos, temos vidas diferentes, é o suficiente. Não deixo por isso de ter um carinho especial por eles, e em termos de personalidade continuamos basicamente os mesmos.
A propósito, no outro dia fui levar a Beatriz ao dermatologista e para meu espanto fui atendido pela Constança, ou melhor Doutora Constança, tinha sido minha colega na primária e fiquei surpreendidíssimo por a ver a li, sempre a tinha imaginado ligada aos números, talvez economista, ou mesmo Ministra das Finanças. Mas duma coisa é certo continua bonita e simpática como sempre. Ainda me deu um cartão de contacto. Quando passar esta fase mais complicada relativamente ao trabalho vou ver se lhe ligo para marcamos um jantar cá em casa para pormos a conversa em dia, certamente temos muito que falar. Mas isto já não é a primeira vês que me acontece, ainda no início do ano fui à repartição de finanças de Aveiro e estive com o Carlos, na altura fizemos o Secundário juntos, mas depois ele concorreu para o Porto e eu para Coimbra e mais uma vez perdemos contacto. Está a trabalhar na área de turismo, segundo ele organiza viagens, tem até uma pequena cadeia de lojas de agências de viagens, e já está no segundo filho, tal como eu.
Quanto à família, a Beatriz anda muito feliz agora que entrou para o infantário, todos os dias tem músicas novas para mim, não tarda a pedir para gravar um cd!, já o Sérgio anda obstinado com as letras e os números. Eu e a Matilde ficamos contentes que assim seja, pois tal como os desejamos queremos um óptimo futuro para eles. Agora que a Matilde decidiu deixar a sua profissão para se dedicar a tempo inteiro aos nossos filhos estamos a ponderar ter mais um filho já que no escritório tudo corre de feição, só espero que assim continue, faço por isso todos os dias, como fiz toda a minha vida.
Quando somos jovens fazemos tantos planos que por vezes atravessamos fases que vacilámos e pomos tudo em causa, mas julgo ter feito as escolhas certas, ou então, as mais acertadas. Apesar de nunca me ter aceitado como um conformista sinto-me tranquilo por tudo aquilo que desenvolvi, e julgo continuar a fazê-lo, pois como neste momento a Terra já se moveu mais um pouco, também o mundo se moveu, por isso é quase proibido pararmos no tempo, vejo-me orquestrado por uma harmonia que me envolve e tranquiliza.
Se este ano conseguir tirar umas férias talvez vá passar aí uma temporada ao Norte. Despeço-me com um abraço.
P.S.: Já pensaram 10 anos, mas nestes documentos não oficiasnão resisto a escrever sem acordos ortográficos!
«Podes ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não te esqueças de que a tua vida é a maior empresa do mundo. E podes evitar que ela vá à falência. Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por ti. Gostava que te lembrasses sempre de que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem desilusões. Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas reflectir sobre a tristeza. Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender nos fracassos. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornares-te no autor da tua própria história. É atravessar desertos, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da tua alma. É agradecer a Deus de manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de ti mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de nós. É ter maturidade para dizer “eu errei”. É ter ousadia para dizer “perdoa-me”. É ter sensibilidade para expressar “eu preciso de ti”. É ter capacidade de dizer “amo-te”. É ter humildade da receptividade. Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades para poderes ser feliz…
E, quando errares, recomeça.
Pois assim descobrirás que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para lapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Nunca desistas de ti.
Nunca desistas das pessoas que amas.
Nunca desistas de ser feliz, pois a vida é um espectáculo imperdível, ainda que se apresentem dezenas de factores a provarem o contrário.»
Into the Wild é baseado numa história verídica e no bestselling literário de Jon Krakauer. Depois de se graduar na Universidade de Emory em 1992, Christopher McCandless (Hirsch), estudante de topo e atleta, abandona as suas posses, oferecendo as suas poupanças de 24 mil dólares à caridade, para ir viver para o Alasca. Ao longo do seu caminho, Christopher encontra uma série de personagens que dão forma e sentido à sua vida.
Quanto custa para ser totalmente livre? Eu digo livre de fazer o que quer, ir onde quiser e viver completamente despreocupado com o dinheiro, a carreira, os amigos, a família… Pois a resposta está neste filme. Uma obra fantástica de Sean Penn que conta como um homem simplesmente conseguiu deixar tudo para trás e enbarcar numa jornada que o levaria a um único destino: a liberdade.