Uns vendem o corpo outros a alma, os valores!
domingo, 28 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
"Viagem"
"É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar..."
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar..."
Miguel Torga
domingo, 14 de agosto de 2011
Dois Excertos de Odes (I Parte)
- Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
- Noite Rainha nascida destronada,
- Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
- Com as estrelas lentejoulas rápidas
- No teu vestido franjado de Infinito.
- Vem, vagamente,
- Vem, levemente,
- Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
- Ao teu lado, vem
- E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
- Funde num campo teu todos os campos que vejo,
- Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
- Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
- Todas as estradas que a sobem,
- Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
- Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
- E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
- Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
- Na distância subitamente impossível de percorrer.
- Nossa Senhora
- Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
- Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
- Dos propósitos que nos acariciam
- Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
- Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
- E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
- Vem, e embala-nos,
- Vem e afaga-nos.
- Beija-nos silenciosamente na fronte,
- Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
- Senão por uma diferença na alma.
- E um vago soluço partindo melodiosamente
- Do antiquíssimo de nós
- Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
- Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
- Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
- Vem soleníssima,
- Soleníssima e cheia
- De uma oculta vontade de soluçar,
- Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
- E todos os gestos não saem do nosso corpo
- E só alcançamos onde o nosso braço chega,
- E só vemos até onde chega o nosso olhar.
- Vem, dolorosa,
- Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
- Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
- Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
- Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
- Vem, lá do fundo
- Do horizonte lívido,
- Vem e arranca-me
- Do solo de angústia e de inutilidade
- Onde vicejo.
- Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
- Folha a folha lê em mim não sei que sina
- E desfolha-me para teu agrado,
- Para teu agrado silencioso e fresco.
- Uma folha de mim lança para o Norte,
- Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
- Outra folha de mim lança para o Sul,
- Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
- Outra folha minha atira ao Ocidente,
- Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
- Que eu sem conhecer adoro;
- E a outra, as outras, o resto de mim
- Atira ao Oriente,
- Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
- Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
- Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
- Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
- Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
- Que tudo o que nós não somos,
- Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
- Onde Deus talvez exista realme:nte e mandando tudo...
- Vem sobre os mares,
- Sobre os mares maiores,
- Sobre os mares sem horizontes precisos,
- Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
- E acalma-o misteriosamente,
- ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
- Vem, cuidadosa,
- Vem, maternal,
- Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
- À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
- E que viste nascer Jeová e Júpiter,
- E sorriste porque tudo te é falso é inútil.
- Vem, Noite silenciosa e extática,
- Vem envolver na noite manto branco
- O meu coração...
- Serenamente como uma brisa na tarde leve,
- Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
- Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
- E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
- Todos os sons soam de outra maneira
- Quando tu vens.
- Quando tu entras baixam todas as vozes,
- Ninguém te vê entrar.
- Ninguém sabe quando entraste,
- Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
- Que tudo perde as arestas e as cores,
- E que no alto céu ainda claramente azul
- Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.
- A lua começa a ser real.
- Fernando Pessoa
- Vicent Van Gogh
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Concurso "Conto Connosco"
Decidi concorrer com o meu texto "Baralho da Vida" a este concurdo promovido pelo Santander Totta. Quem me quiser opoiar basta ir ao link seguinte: http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe.php?id=1091 fazem longin com o facebook e clicam "gosto". Ablitam-se ainda a ganhar prémios semanais!
Obrigado!!!
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Baralho da Vida
Hoje tive um sonho, mas não acordado; era a noite que me embalava pelos pergaminhos da subsistência e pelos conceitos dos termos vida, duração, passagem, tempo, existência, momento, situação… E depois pensei que poderia fazer igual situação no reverso tornando uma situação o espectro de um momento, que no comungar da sua existência temporal fariam parte única e simultaneamente o complementar de uma duração, vida!
Tomei pulso ao coração - acordei - estremecido na minha inquietude. Levantei-me e segui rumo ao baú, do qual retirei um baralho de cartas, as cartas da vida. Deixei o corpo tender na cadeira e na secretária espalhei, como o semeador que ateia a semente (seja o solo fértil ou não) os naipes, as figuras, os reis e as damas e o Joker e as cenas e até aquelas cartas que deixamos sempre de parte quando queremos jogar algo mais elaborado. Mas eu falei de um baralho, e isso implica um todo: o trigo e o joio, com tudo que de religioso daqui possa advir! Dei asas ao cérebro e transformei, ou pelo menos tentei, os pequenos rectângulos num castelo de cartas. Que patético que isto é, ou pode parece ser...
Estudei. Reformolei. Imaginei. Idealizei. Projectei. Mas sabem o que foi difícil que tudo isto? Segundo o dicionário de Língua Portuguesa diz que é qualquer coisa como “dar existência a” e tem denominação de Criar.
E no intervalo disto tudo, não sei se criei, mas aprendi que as cartas são mais de quarenta, que os castelos são difíceis de armar, mas ainda mais fáceis de se derrubar e no intermédio disto a construção será sempre a harmonia. E o azeite e água nunca se irão fundir, e os castelos não são só de reis ou de damas, porque eu tirei a carta mais insignificante: pois e o castelo derrubou-se com ainda mais rápido que o ponteiro dos segundos avança no relógio, apesar de eu não ter demorado meramente um segundo a edificar o castelo.
Todavia decidi dar-lhe forma novamente. Posto isto, ergui-me da cadeira e olhei maravilhado, com o mel de uma criança nos meus olhos e sorri em tonalidade de felicidade e contemplação. Estagnei os acordes da minha cabeça, enterrei-me na cama e adormeci na esperança de ser feliz e de o meu castelo, construído com as cartas do baralho da vida, não ser somente um projecto mas antes uma concretização.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Fogo
"A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande."
Ilustração de Elisabete Da'silva
domingo, 26 de junho de 2011
sábado, 18 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
Força de Vencer
"Existem homens que lutam um dia e são bons; existem outros que lutam um ano e são melhores; existem aqueles que lutam muitos anos e são muito bons. Porém, existem os que lutam toda a vida. Estes são os imprescindíveis."
sábado, 11 de junho de 2011
O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
Fernando Pessoa
sexta-feira, 10 de junho de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
sexta-feira, 3 de junho de 2011
O Nó no Lençol
"Numa reunião de pais numa escola, a professora ressalvava o apoio que os pais devem dar aos filhos e pedia-lhes que se mostrassem presentes, o máximo possível...
Considerava que, embora a maioria dos pais e mães trabalhasse fora, deveriam arranjar tempo para se dedicar às crianças.
Mas a professora ficou surpreendida quando um pai se levantou e explicou, humildemente, que não tinha tempo de falar com o filho nem de vê-lo durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava a dormir e quando regressava do trabalho era muito tarde e o filho já dormia.
Explicou, ainda, que tinha de trabalhar tanto para garantir o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava compensá-lo indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa.
Mas, para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria. Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo.
Quando o filho acordava e via o nó, sabia logo, que o pai tinha estado ali e o tinha beijado.
O nó era o meio de comunicação entre eles.
A professora emocionou-se com aquela história e ficou surpreendida quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola.
Este facto, faz-nos reflectir sobre as muitas maneiras de as pessoas se mostrarem presentes, e de comunicarem com os outros.
Aquele pai encontrou a sua, que era simples mas eficiente.
E o mais importante é que o filho percebia, através do nó, o que o pai estava a dizer.
Simples gestos, como um beijo e um nó na ponta do lençol, valiam, para aquele filho, muito mais do que presentes ou a presença indiferente de outros pais.
É por essa razão que um beijo cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, ou o medo do escuro...
É importante que nos preocupemos com os outros, mas é também importante que os outros o saibam e que o sintam.
As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas sabem reconhecer um gesto de amor.
Mesmo que esse gesto seja apenas e só, um nó num lençol..."
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo'
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Nem Mais!
"O conselho é muito mal recebido pelos que dele mais necessitam, os ignorantes."
(Leonardo da Vinci)
terça-feira, 24 de maio de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
O Que Há em Mim é Sobretudo Cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…
Álvaro de Campos
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