terça-feira, 30 de outubro de 2012

Cigarro à Luar


Tenho desejo de um cigarro. Aliás, quero um cigarro; sentir a sua fragilidade; vê-lo a consumir-se, enquanto me consome, e estender o olhar afeado por esta miragem citadina; tomar o seu paladar infimamente e particularizar o seu esvair precoce entre a sensação dos dedos. Deixar-me abrangido pela quentura das paredes e emocionar-me com o cair da chuva. Debruçar o meu corpo sobre o vago (cigarro ardente), sentir a leveza das partículas, atraiçoar o pensamento, trair o destino, apunhalar a vida!
Fumar mata? E viver? Viver também não é mortal (confusão) – dilema?! Oh, como é constrangedor estar vivo.
Sou um louco insanável que se tenta preencher por uma razão, que jamais será absoluta, pelo seu próprio conceito ser privado e relativo.
Experimento a combustão do corpo, a química capaz de nutrir os poros, de dar gesto ao homem – expressão. Se ao menos tudo fosse exacto e não houvesse este luar perfumado de Outono. Se pelo menos fosse poeta e tivesse a capacidade de me enjugar neste papel e ver-me esvaído de mim. A minha complexidade cansa-me de verdade, enquanto o cigarro se dissipa…
Apago o cigarro.
Deito-me.
Finjo que não respiro.


Sociedade Crua